O Direito em Portugal: Entre o Ideal de Justiça e os Desafios da Prática Jurídica
Portugal
é um país com uma longa tradição jurídica, que remonta aos tempos das Ordenações
e à influência do Direito Romano. Hoje, à luz do Estado de Direito democrático
consagrado na Constituição de 1976, o sistema jurídico português baseia-se num
princípio fundamental: o respeito pelos direitos, liberdades e garantias dos
cidadãos. Contudo, a prática do Direito em Portugal enfrenta, diariamente,
desafios que colocam em causa a efetivação plena desse ideal de justiça.
É
certo e de conhecimento popular que um dos maiores problemas do sistema jurídico
português é, sem dúvida, a morosidade processual. Os tribunais estão sobrecarregados
com milhares de processos pendentes, que se arrastam durante anos, muitas vezes
sem uma resolução célere, problema que afeta garantias constitucionais
basilares do nosso Estado. Esta realidade é particularmente preocupante no
âmbito dos processos cíveis e administrativos, em que os cidadãos procuram
justiça para questões fundamentais como direitos laborais, habitação ou acesso
a prestações sociais. A lentidão da justiça mina a confiança dos cidadãos no
sistema jurídico e impede que se faça justiça em tempo útil – afinal, justiça
tardia é justiça falhada.
Para
além da morosidade há que ter em conta que o princípio constitucional de acesso
aos tribunais é bastantes vezes incumprido ou cumprido com lacunas. Não
obstante existirem mecanismos de apoio judiciário para cidadãos de baixos rendimentos,
o custo para aqueles que não cumprem os requisitos necessários para a sua
atribuição correspondente às taxas de justiça continua a ser um entrave
significativo. A justiça, que deveria ser um bem acessível a todos, torna-se muitas
vezes um privilégio reservado a quem tem capacidade económica para suportar os
custos do processo. Esta desigualdade no acesso à justiça agrava as desigualdades
sociais existentes e enfraquece o princípio de igualdade perante a lei, um dos
pilares do Estado de Direito.
Os
avanços tecnológicos apesar de bem-vindos, e no seu conceito muitas vezes legal
trazerem vantagens, não têm sido acompanhados com a formação dos recursos
humanos ou até mesmo da implementação de infraestruturas e equipamentos capazes
de, eficazmente, colocarem em prática as novas medidas.
A
profissão jurídica em Portugal, por sua vez, vive um momento de transformação. A
advocacia, em particular, enfrenta desafios relacionados com a precarização da profissão
e a dificuldade dos jovens advogados em estabelecer uma carreira sustentável.
Atualmente, devido a alterações nos estatutos profissionais centenas de jovens
foram impedidos de realizar os estágios de acesso às profissões. Para além
disso, a Solicitadoria e a profissão de Solicitador é ainda vista como estando “um
degrau abaixo” da profissão de advogado. A restrição nas competências dos Solicitadores,
por exemplo, restringe muitas vezes a capacidade de resposta dos profissionais
jurídicos aos litigantes por subcarga de processos.
A
legislação em Portugal continua, por vezes, a ser excessivamente burocrática e complexa.
A constante produção de diplomas legais, muitas vezes sobrepondo-se ou
contradizendo-se, cria insegurança jurídica. Para o cidadão comum, compreender
as leis torna-se uma tarefa hercúlea, o que distancia ainda mais a sociedade do
sistema jurídico.
Apesar
dos desafios, o Direito em Portugal é também uma força motriz de progresso
social. A evolução dos direitos fundamentais ao longo das últimas décadas —
como o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e a despenalização da
interrupção voluntária da gravidez — demonstra que o sistema jurídico pode ser
um reflexo das mudanças sociais e dos valores que norteiam a sociedade
portuguesa.
O
futuro do Direito em Portugal depende, em grande medida, da capacidade das instituições
jurídicas e dos profissionais do setor em se adaptarem às mudanças do mundo
contemporâneo. A justiça não pode ser apenas um conceito abstrato; deve ser uma
prática efetiva que proteja os mais vulneráveis, combata as desigualdades e
promova o bem comum.
Em
última análise, o Direito deve ser um instrumento ao serviço da justiça e da dignidade
humana, e não um mero conjunto de normas técnicas ou uma arena de disputas
burocráticas. Portugal tem uma herança jurídica rica e uma tradição de defesa
dos direitos humanos. O desafio, agora, é garantir que o sistema jurídico acompanhe
as necessidades e expectativas da sociedade, promovendo uma justiça mais
acessível, célere e eficaz.
A
justiça é um pilar fundamental de qualquer democracia. Mas, para que seja efetiva,
precisa de ser mais do que um ideal — deve ser uma realidade sentida por todos
os cidadãos, em todas as esferas da vida. Só assim Portugal poderá ser, verdadeiramente,
um Estado de Direito onde a justiça não seja uma promessa distante, mas um
direito efetivo de cada cidadão.
