O custo invisível da investigação científica
Os bolseiros de investigação
científica são, paradoxalmente, a espinha dorsal da produção de conhecimento em
Portugal e, ao mesmo tempo, um dos grupos mais fragilizados dentro do sistema
científico. O seu trabalho sustenta projetos, publicações e até atividades de
ensino, mas continua a ser enquadrado como “formação”, o que legitima a
ausência de direitos laborais básicos.
O Estatuto do Bolseiro de
Investigação foi criado com a narrativa de que as bolsas são oportunidades de
aprendizagem. No entanto, e apesar de à primeira vista os valores parecerem
competitivos, na prática estas bolsas funcionam como maus substitutos informais
de contratos de trabalho: exigem dedicação exclusiva e cumprimento de
responsabilidades científicas, mas não oferecem subsídio de desemprego, 13.º ou
14.º mês, nem proteção plena na doença. É um modelo que ainda perpetua mais a
ideia de que o investigador é um “eterno estudante”, mesmo quando já possui
experiência consolidada.
Para além disso, os descontos
para a Segurança Social são voluntários (mas incluídos), no entanto limitam-se
apenas ao primeiro escalão, o que inevitavelmente prejudica ainda mais as
futuras reformas. A precariedade estende-se também à duração máxima das bolsas
que, dependendo do tipo de bolsa, não pode ultrapassar os 12 meses para Bolsas
de Iniciação à Investigação, os 2 anos para Bolsas de Mestrado ou os 4 anos
para Bolsas de Doutoramento, levando à instabilidade a médio prazo na vida dos
bolseiros. Tudo isto ainda aliado à ausência de uma carreira estruturada sem
progressão ou integração completa torna esta uma situação dura e
discriminatória para todos os bolseiros.
A criação de novas agências e
reestruturações da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P. (FCT) são
positivas, mas ainda não resolveram o problema de fundo: a ciência em Portugal
depende de trabalho qualificado que não é reconhecido como tal. E enquanto os
bolseiros forem tratados como estudantes eternos em vez de profissionais
essenciais, a investigação continuará a ser feita com os sacrifícios e a
instabilidade que um contrato de trabalho poderia colmatar.
