Leiria e Oeste: a universidade que a indústria pediu


Em 1973, quando o país criou de raiz as universidades de Aveiro e do Minho, fê-lo com uma intuição que o tempo se encarregou de confirmar: uma região industrial sem universidade tende a exportar muito e a reter pouco, porque a parte mais valiosa do que produz – o conhecimento incorporado no produto – é concebida noutro lugar. Aveiro tinha a cerâmica; o Minho, o têxtil. Meio século volvido, Aveiro é sinónimo de materiais e telecomunicações, e o Minho acolhe parcerias entre indústria e academia que servem de referência ao país. A transformação não veio da universidade sozinha, nem viria da indústria entregue a si própria: veio do encontro entre ambas. É esse encontro que agora chega a Leiria.

A região de Leiria e Oeste, com perto de setecentas mil pessoas, está entre os maiores territórios portugueses, em população e em produto interno bruto, fora das duas áreas metropolitanas: o distrito de Leiria, por si só, exporta anualmente mais de três mil milhões de euros. Contudo, dos seus dezasseis concelhos, apenas um supera a média nacional de poder de compra. A aparente contradição tem explicação: uma região pode ser exímia a fabricar e, ainda assim, ocupar os degraus da cadeia de valor onde a margem de lucro é menor, porque a conceção, a validação e as patentes tendem a fixar-se a montante, junto de quem investe e investiga em grande escala. O crescimento industrial tem, de resto, um comportamento bem estudado: enquanto assenta em produzir mais com os mesmos meios, aproxima-se de uma assíntota. O que desloca essa assíntota é, precisamente, a inovação, que não significa deixar de produzir, mas sim passar a conceber o que se produz. Quando os municípios e o Estado convergiram na criação de uma universidade, a razão não era circunstancial: era a economia da região e, através dela, a do país. A sinergia entre quem investiga e quem produz dissipa-se com a distância. A riqueza potencia-se no limite em que esta tende para zero. Uma universidade dentro do território realiza esse limite.

Essa universidade existe desde julho e herda quatro décadas de politécnico: uma comunidade de catorze mil e quinhentos estudantes, quinze unidades de investigação e uma proximidade às empresas que muitas instituições de ensino superior tardaram em construir. Acumulara-se caudal contra a comporta do enquadramento e o decreto abriu-a. A diferença entre os dois subsistemas nunca esteve no nome, mas sim na missão: a uma universidade pede-se que produza ciência, e a instituição inteira organiza-se em função dessa exigência. Meio século depois de Aveiro e do Minho, o país volta a fazer a mesma aposta: aproximar quem investiga de quem produz. Desta vez, chama-se Leiria e Oeste.

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